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    January 11

    o ar carregado, sutil...

    hoje eu queria passar do ponto em que normalmente desço.
    queria seguir no ônibus observando os lugares novos sem a  graça de novidade.
    Por que será que quando estamos em nossa cidade, estado, é impossível olhar para lugares desconhecidos com os olhos curiosos que temos quando observamos lugares que antes só existiam em nossa imaginação ou nem nela? Olhos que fotografam, gravam pequenos detalhes para formar memórias.
    quando um senhor comentou comigo que o dia estaria muito quente percebi que, além de olhar, queria também me calar. queria seguir no mundo como uma prenseça ausente, como alguém de quem não se espera absolutamente nada em resposta à qualquer gesto ou estímulo. Como uma pessoa que observa sem ser observada e quando observada pode simplesmente seguir imóvel e muda.
    Como quando alguém pergunta alguma coisa e não se presta atenção, mas sem a obrigação de pedir que a pessoa repita o que disse para oferecer alguma coisa de volta, ou ter q fazer um gesto com a cabeça ou alguma feição de compreensão.
    Olhar enquanto lhe dirigem a palavra e depois virar os olhos ou até mesmo o corpo para onde quer q se tenha vontade.
    exister ausente.
    em dias como o de hoje queria poder me duplicar. queria que existissem duas de mim para quem uma cumprisse com as minhas obrigações e responsabilidades. interagisse com o mundo. e a outra para desligar, para transportar como algo que não causa mudança nenhuma no ambiente, nem sequer faça parte da paisagem e essa apenas observasse, pensasse ou deixasse de pensar, constasse em movimento parada.
    deve ser gostoso um dia ser insignificante no mundo. não ter que esboçar reação nenhuma para nada nem ninguém. estar imersa tão profundamente em seus pensamentos ou ausência deles sem que nada possa ser pedido e nada possa penetrar este estado de 'consciência'. desparecer do mundo estando nele.
    deve ser interessante também não precisar prestar atenção em nada nem ninguém de forma que as palavras quando dirigidas à você tornem-se gemidos impossíveis de serem traduzidos em significados. os olhares possam ser fitados sem desconforto e sem importância também.
    não é tristeza e nem raiva da humanidade. é simplesmente uma vontade para apenas um dia de abstração de si e de tudo, mas uma abstração concentrada e livre.
     
    hoje tem uma música do raul seixas na minha cabeça q poderia ocupar grande parte destas horas de 'inesxistência'.
     
    As Profecias

    Tem dias que a gente se sente
    Um pouco, talvez, menos gente
    Um dia daqueles sem graça
    De chuva cair na vidraça
    Um dia qualquer sem pensar
    Sentindo o futuro no ar
    O ar, carregado sutil
    Um dia de maio ou abril
    Sem qualquer amigo do lado
    Sozinho em silêncio calado
    Com uma pergunta na alma
    Por que nessa tarde tão calma
    O tempo parece parado?

    Está em qualquer profecia
    Dos sábios que viram futuro
    Dos loucos que escrevem no muro
    Das teias, do sonho remoto
    Estouro, explosão, maremoto
    A chama da guerra acesa
    A fome sentada na mesa
    O copo com álcool no bar
    O anjo surgindo no mar
    Os selos de fogo, o eclipse
    Os símbolos do apocalipse
    Os séculos de Nostradamus
    A fuga geral dos ciganos
    Está em qualquer profecia
    Que o mundo se acaba um dia

    Um gosto azedo na boca
    A moça que sonha, a louca
    O homem que quer mas se esquece
    O mundo dá ou que desce
    Está em qualquer profecia
    Que o mundo se acaba um dia
    Sem fogo, sem sangue, sem áis
    O mundo dos nossos ancestrais
    Acaba sem guerra mortais
    Sem glorias de Martir ferido
    Sem um estrondo, mas com um gemido

    Os selos de fogo, o eclipse
    Os símbolo do apocalipse
    A fuga geral do ciganos
    Os séculos de Nostradamus

    Está em qualquer profecia
    Que o mundo se acaba um dia (3x)
    Um dia...

    Sim, sim, sim...